Quinta-feira, 26 de Junho de 2008

   Luana puxou a gola do casaco para cima. O vento gelado cortava-lhe o rosto como facas afiadas. A chuva começava a cair em bátegas frias.
    Enquanto caminhava ela não conseguia deixar de pensar em como o tempo fazia tudo parecer ainda mais cinzento... e logo naquele dia o carro tinha que avariar.
    Percorreu o caminho até à paragem de autocarro completamente absorvida nos seus pensamentos, alheia à vida da cidade. Na paragem as pessoas tentavam ao máximo proteger-se da chuva no abrigo que era demasiado pequeno para tanta gente.
    Luana preferiu ficar à chuva do que juntar-se àquela confusão. Os minutos passavam e ela sentia-se enregelar, o vento não havia meio de abrandar e ela já mal sentia os dedos das mãos. Finalmente o autocarro apareceu, mas claro... já vinha cheio.

    As pessoas apertavam-se para entrar... Luana deixou-se levar pelo movimento daquela onda de pessoas e quando deu por si estava dentro do autocarro.
    Nem uma janela aberta... o cheiro a bafio das roupas molhadas misturava-se com o odor de todos aqueles corpos comprimidos uns contra os outros... o ar carregado da respiração de toda aquela gente...
    Luana sentiu uma náusea... estava tão apertada que mal se conseguia mexer... Sentiu o seu coração acelerar, a sua respiração ficar cada vez mais ofegante. De repente tudo parecia andar à roda... ela conhecia os sintomas, estava prestes a ter um ataque de pânico... tinha que se controlar.
    Fechou os olhos e tentou pensar num sitio calmo, onde se sentisse em paz... mas era impossível. O seu cérebro parecia incapaz de se abstrair dos ruídos que a rodeavam.
Um bebe chorava insistentemente sem que a mãe fosse capaz de o acalmar, alguém tossia, alguém se assoava, a música irritante que escapava do ipod de um rapaz... Luana não conseguia concentra-se e sentia que o controlo estava prestes a escapar-lhe.

    Com um solavanco o autocarro parou e Luana foi forçada a abrir os olhos. O seu rosto devia ter um ar de tal terror que um homem se levantou e fez-lhe sinal que se sentasse. Ela aceitou.
    Sentou-se e encostou a cabeça à janela... era bom sentir a sensação de frescura do vidro frio na sua testa.
    Luana olhava para o exterior mas não via nada, pouco a pouco a sua respiração começou a abrandar. A sensação de pânico estava longe de passar, mas pelo menos agora sentia-se capaz de a dominar.

    Finalmente chegou ao seu destino... puxou a gola do casaco e saiu do autocarro, percorrendo a correr os poucos metros que separavam a paragem do local a que se dirigia.
    Na fachada do enorme edifício podia ler-se: Instituto de Medicina Legal.

 

   Luana passou pela zona onde paravam as carrinhas, ao ver quantas ali se encontravam percebeu que tinha pela frente mais um longo dia de trabalho.
    Entrou e fez um aceno ao passar pela cabine do segurança, não precisou mostrar o cartão de identificação, ali todos a conheciam.
    Vestiu a bata e entrou na morgue. O ar ali era ainda mais gelado que na rua, mas ela não sentia isso. Luana respirou fundo inalando o ar cheio dos odores que lhe eram familiares.
Ninguém conseguia perceber, mas era ali que ela se sentia em paz. Só ali ela conseguia controlar verdadeiramente o seu pânico.

    Tal como imaginara ia ter um longo dia, as cinco mesas de autopsia estavam ocupadas.
Dirigiu-se à que estava mais perto de si e pegou no ficheiro correspondente, mais um John Doe... Não conhecia o nome do inspector... devia ser alguém novo. Não ia esperar por ele para começar a trabalhar.
    O seu assistente já tinha chegado e já preparara tudo para que pudessem começar.
    A porta basculante abriu-se com ruído forçando Luana a olhar... uma figura familiar entrava na morgue.

- Olá Dra! Hoje está com um ar particularmente elegante!

    Luana sorriu. James Wyatt era o único que lhe conseguia arrancar um sorriso.
    Ela sabia que nas suas costas todos lhe chamavam "rainha de gelo" mas não se importava. Sabia também que o seu aspecto era tudo menos elegante, com o cabelo completamente ensopado a escorrer-lhe para os ombros.

- Obrigada Wyatt! Perdi horas frente ao espelho... e tudo só para ti! - respondeu ela sarcástica
- Estou a ver que hoje estamos de bom humor... O que aconteceu?
- A porcaria do carro não pegou e tive que vir de autocarro... - respondeu ela revirando os olhos
- Quantas vezes já te disse para venderes aquela velharia e comprares um carro novo? Qualquer dia ainda ficas parada no meio do deserto...

    James sabia o quanto devia ter sido difícil para ela estar num autocarro lotado. Ele era a única pessoa naquela cidade que conhecia o passado de Luana...
    Ainda se lembrava do primeiro dia em que a vira... acabada de sair da faculdade e completamente perdida na imensidão daquele velho edifício.
    Lembrava-se bem de como ela se recusava a aceitar boleia dos colegas até ter comprado a velharia a que chamava carro. De como se afastava de tudo e de todos... e de como, passo a passo, fora conquistando a sua confiança até ela lhe contar o seu passado e lhe falar dos seus ataques de pânico.


publicado por Mónica às 23:14
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Porque o mundo não é a preto e branco...

É aqui que podem encontrar o meu último conto... que se chama... adivinhem...

BLACK AND WHITE

Espero que gostem (e já agora que vão deixando comentários)


publicado por Mónica às 23:09
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